,

Lucas Marques

Estratégia não começa com o que você quer fazer. Começa com o que você decide não fazer. Todo negócio, e toda vida, é limitado pelo mesmo fator: recurso. E recurso não é só dinheiro. É tempo. É foco. É energia. É talento. É o que ocupa sua mente no banho, na corrida, no silêncio. Distribuir…


Trabalhar estratégia é ter coragem de desistir

Estratégia não começa com o que você quer fazer. Começa com o que você decide não fazer. Todo negócio, e toda vida, é limitado pelo mesmo fator: recurso. E recurso não é só dinheiro. É tempo. É foco. É energia. É talento. É o que ocupa sua mente no banho, na corrida, no silêncio. Distribuir recursos em tudo o que é “boa ideia” não é a fórmula do fracasso, é a fórmula do não crescimento.

Somente o foco e a consciencia transformam esforço em resultado, e foco só existe quando você tem coragem de desistir. Um único “sim” verdadeiro exige mil “nãos”. O problema é que dizer “não” dói. Dói porque, às vezes, a opção que você abandona também é boa, rentável, interessante. Mas estratégia não é escolher entre o bom e o ruim. É escolher entre o bom e o essencial.

Por isso ter uma clareza de qual o seu principal objetivo é importante, ter o critério que define o que faz sentido. Essa é a missão: aquilo que faz você lutar por algo maior do que si mesmo. Algo que, mesmo quando você não estiver mais aqui, ainda valerá a pena para quem continuar. Missão é utópica, como acabar com a fome no mundo. Sabemos que nunca chegaremos ao final, mas ela nos dá direção. Ela serve para guiar escolhas difíceis:

Isso me aproxima ou me afasta daquilo que é essencial?
Quando não existe missão, qualquer caminho parece plausível. E quando tudo parece plausível, nada se sustenta.

Se missão é o “por quê”, visão é o “onde queremos chegar”. É a próxima linha de chegada. O objetivo mensurável, alcançável, temporal. E como um alpinista que termina uma montanha e imediatamente olha a próxima, a visão vai mudando ao longo do tempo quando é alcançada. Já a missão, não. E aqui entra um ponto crítico: A visão é o filtro da alocação de recursos. Sem visão, você financia urgências alheias. Com visão, você prioriza o que importa.

No caminho, enquanto estivermos na jornada rumo à visão, muitas decisões precisarão ser tomadas, e para tomá-las preisaremos de um código para orientar as decisões: os valores. Eles definem quem caminha com você, que caminhos você aceita percorrer e que tipo de resultado você se recusa a conquistar se o preço for muito alto. Nenhum Everest valerá a pena se, para chegar ao topo, você precisar se perder de si mesmo. O ser humano só expressa sua máxima potência quando age com autenticidade. Abrir mão dos valores para acelerar o resultado é uma falsa vitória, você chega rápido, mas chega pequeno.

Com missão, visão e valores claros, toda estratégia precisa de técnica: quebrar o todo em metas menores, transformar metas em projetos, transformar projetos em tarefas, transformar tarefas em rotinas. É mais fácil pensar em treinar uma hora por dia do que pensar “escalar o Kilimanjaro”. É mais fácil visitar dois clientes por dia do que “bater 10 milhões no mês”. Pareto entendeu isso: 80% do impacto vem de 20% do esforço, mas só quando você corta os outros 80% de ruído. Estratégia é isso: Desistir do que dilui a sua potência.

Depois de fatiar o problema, falta medir. Mas aqui mora outro erro fatal: querer controlar tudo. Controle total não é gestão. Controlar tudo mata a inovação. E inovar é fazer diferente, mas fazer diferente só é possível quando existe espaço para erro. Controle apenas o essencial. O resto é terreno fértil para adaptação.

O risco aceitável é o risco que não te tira do jogo. E todo jogo exige coragem de duas desistências simultâneas: desistir do que ultrapassa sua capacidade de sustentação a partir de seus valores pessoais; e desistir da vontade de desistir quando as coisas derem errado, porque elas vão dar errado. Por isso dar “all-in” em toda aposta não é coragem, é imprudência. Estratégia é sobreviver para continuar jogando. Correr riscos, mas apensa os acessíveis.

Desistir dói, e deve doer mesmo. Desistir significa matar infinitas possibilidades para que uma possa existir. É renunciar ao conforto emocional do “poderia ser”. Mas é esse o preço da escolha. Toda escolha cria um futuro, e elimina todos os outros. A pergunta estratégica não é “o que devo fazer?”. A pergunta é: Do que devo desistir para que o que realmente importa possa existir?

Se seu futuro nasce das suas escolhas, e suas escolhas nascem das desistências, então responda com honestidade: O que você deveria estar desistindo hoje para construir o amanhã que deseja? Qual agenda não deveria estar atendendo? Qual problema não deveria estar resolvendo? Qual oportunidade não deveria estar perseguindo?

Do grego strategía. Formalmente ou informalmente, toda jornada de sucesso começa no mesmo ponto: na coragem de desistir.